do pai. Nestor
Royce foi intendente supremo durante estes últimos catorze
anos, enquanto Lorde Arryn servia em Porto Real, e muitos
sussurram que ele deveria governar até que o rapaz fosse
maior de idade. Outros crêem que Lysa deveria voltar a se
casar, e depressa. Os pretendentes já se aglomeram como
corvos num campo de batalha. O Ninho da Águia está cheio
deles.
- Eu podia ter previsto isso - disse Catelyn. Não era de
admirar, Lysa ainda era nova, e o reino da Montanha e Vale
era um belo presente de casamento. - Lysa vai tomar outro
esposo?
- Ela diz que sim, desde que encontre um homem que lhe
convenha - disse Brynden Tully -, mas já rejeitou Lorde
Nestor e uma dúzia de outros homens adequados. Jura que
desta vez será ela a escolher o senhor seu esposo.
- O senhor, mais que todos, dificilmente pode censurá-la por
isso.
Sor Brynden resfolegou.
- E não censuro, mas... parece-me que Lysa só está jogando o
jogo da corte. Aprecia o divertimento, mas creio que sua irmã
pretende ser ela a governante até que o filho tenha idade
suficiente para ser Senhor do Ninho da Águia na realidade, e
não apenas no título.
- Uma mulher pode governar tão sabiamente como um
homem - Catelyn retrucou.
- A mulher certa pode fazê-lo - disse o tio, olhando-a de
soslaio. - Não tenha ilusões, Cat. Lysa não é como você -
hesitou por um momento. - A bem da verdade, temo que não
vá achar sua irmã tão... prestativa como gostaria.
Catelyn não compreendeu.
- O que o senhor quer dizer?
- A Lysa que regressou de Porto Real não é a mesma mulher
que foi para o sul quando o marido foi nomeado Mão. Aqueles
anos lhe foram duros. Você deve saber. Lorde Arryn foi um
esposo cumpridor, mas o casamento deles era feito de política,
não de paixão.
- Tal como o meu.
- Começaram do mesmo modo, mas o resultado do seu foi
mais feliz que o de sua irmã. Dois natimortos, quatro abortos,
a morte de Lorde Arryn... Catelyn, os deuses concederam a
Lysa só aquele filho, e eia vive agora apenas por ele, pobre
rapaz. Não admira que tenha preferido fugir a vê-lo entregue
aos Lannister. Sua irmã tem medo, filha, e são os Lannister
que ela mais teme, Correu para o Vale, esgueirando-se da
Fortaleza Vermelha como um ladrão na noite, e tudo para
tirar o filho da boca do leão... e agora você trouxe o leão até a
sua porta,
- Acorrentado - Catelyn o corrigiu. Uma fenda abriu-se à sua
direita, caindo até a escuridão. Puxou as rédeas do cavalo e
escolheu o caminho com passos cautelosos.
- Ah! - o tio deu uma olhadela por sobre o ombro para onde
Tyrion Lannister fazia sua lenta descida atrás deles. - Vejo
um machado em sua sela, um punhal no cinto e um
mercenário que o segue como uma sombra faminta. Onde
estão as correntes, querida?
Catelyn moveu-se desconfortável na sela.
- O anão está aqui, não por vontade dele. Com ou sem
correntes, é meu prisioneiro. Lysa não desejará menos que ele
responda pelos seus crimes que eu. Foi seu esposo que os
Lannister assassinaram, e foi a sua carta que primeiro nos
preveniu a respeito deles.
Brynden Peixe Negro dirigiu-lhe um sorriso cansado.
- Espero que tenha razão, filha - suspirou, num tom que dizia
que ela se enganava,
O Sol já estava bem a oeste quando a ladeira começou a
perder a inclinação sob os cascos dos cavalos. A estrada
alargou-se e endireitou-se e, pela primeira vez, Catelyn
reparou em flores silvestres e ervas que cresciam ao redor.
Depois de atingirem o fundo do vale, o avanço tornou-se mais
rápido e andaram um bom tempo a meio galope por bosques
verdejantes e pequenos lugarejos sonolentos, passando por
pomares e trigais dourados, patinhando através de uma dúzia
de córregos batidos pelo sol. O tio enviou um porta-
estandartes à frente deles, com um estandarte duplo
esvoaçando no mastro: o falcão e a lua da Casa Arryn no
topo, e por baixo seu peixe negro. Carroças de agricultores,
mercadores e cavaleiros de Casas menores afastavam-se para
lhes dar passagem.
Mesmo assim, já tinha anoitecido por completo quando
atingiram o robusto castelo que se erguia no sopé da Lança do
Gigante. Archotes tremeluziam no topo de suas muralhas e o
crescente da lua dançava nas águas escuras de seu fosso. A
ponte levadiça estava içada e a porta, descida, mas Catelyn
viu luzes ardendo na guarita, derramando-se das janelas das
torres quadradas que ficavam por trás.
- Os Portões da Lua - disse o tio quando o grupo puxou as
rédeas dos cavalos. Seu porta-estandartes dirigiu-se à borda
do fosso a fim de saudar os homens na guarita. - O domínio de
Lorde Nestor. Ele deve estar à nossa espera. Olhe para cima.
Catelyn dirigiu os olhos para cima, e mais para cima, e mais
ainda. A princípio tudo o que viu foram rocha e árvores, a
massa da grande montanha envolvida na noite, tão negra
como um céu sem estrelas. Mas depois reparou no brilho de
fogos distantes muito acima deles; uma torre fortificada,
construída na íngreme vertente da montanha, cujas luzes
eram como olhos cor de laranja que olhavam das alturas.
Acima dessa torre havia outra, mais elevada e mais dista